Casa de Espíritos

quinta-feira, agosto 23, 2007

Até amanhã

A janela está aberta e o vento matinal entra no silêncio do quarto. Os cortinados mexem-se lentamente ao sabor da música do nosso sono. (Ontem, o ar que entrou no quarto não chegou para acabar com o calor).
Estás deitado de lado, de costas para mim, e toco-te devagar, com o dedo. Aproximo a minha cara das tuas costas, cheiro-te, e o meu coração dispara. Ainda há pouco estavas molhado, transpirado, e agora dormes como uma criança.
Beijo-te uma vez, os meus lábios sentem a tua pele ainda doce.
No jarro ao lado da cama, as flores estremecem, como o meu colo estremece ao se lembrar de ti, e uma rajada de brisa quente não areja o quarto.
Cheiro-te melhor, o meu braço serpenteia pelas costas, pelo teu ombro, pelas axilas de cheiro acre, e sossega contra o teu peito. Agora é a mão, a cabeça dessa cobra inquieta, que não consegue parar. Sente os teus pelos, os mamilos, as costelas e o umbigo. Toco-te mais abaixo, de lado, e sinto-te num arrepio. Suspiras, e eu suspiro também. Viras-te para mim e estamos os dois iguais, reflexos um do outro: o cabelo curto despenteado, os braços fortes e arrepiados. O lençol ainda nos cobre mais abaixo, mas imaginamos o que nos espreita. Beijas-me com paixão. A boca, a língua, o pescoço, a nuca despida. Pegas-me no braço e viras-me. Agora sou eu que estou de costas para ti. Apertas-me o peito liso, e tocas-me com força no meu sexo hirto. Sinto o teu pé por baixo do meu, os dedos a marcar o ritmo do nosso desejo. Amo-te de verdade, como nunca amei outro homem. (Pelo menos até amanhã.)
Uma rajada de vento entra pelos cortinados, que batem na jarra. As flores despedaçam-se no chão.